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A expressão “Cultura do Cancelamento” não é novidade. Começou a ganhar força há alguns anos nos Estados Unidos como um movimento para chamar a atenção para causas sociais e para a preservação ambiental, utilizando as redes sociais como uma maneira de amplificar a voz de minorias e forçar ações políticas de marcas ou figuras públicas.

O termo também foi destaque em 2019, pelo Dicionário Macquarie, que elege anualmente as palavras e expressões mais utilizadas – pela língua inglesa e que acaba refletindo também em outros idiomas – para moldar o comportamento humano. Mas nas últimas semanas voltou a fazer parte do noticiário e ser um dos assuntos mais comentados nas redes sociais, alavancado pela repercussão do caso Cafferty. Mas afinal, você sabe o que significa a Cultura do Cancelamento e qual sua relação com o mundo corporativo?

Cancelados

A prática funciona assim: um usuário de mídias sociais, como Twitter e Facebook, presencia um ato que considera errado, registra em vídeo ou foto e posta em sua conta, com o cuidado de marcar a empresa empregadora do denunciado e autoridades públicas ou outros influenciadores digitais que possam amplificar o alcance da mensagem. É comum que, em questão de horas, o post tenha sido replicado milhares de vezes. A avalanche de menções negativas sobre a pessoa ou empresa leva a um desgaste repentino da imagem sem que a pessoa, marca ou empresa tenham tempo hábil de se defender, causando prejuízos, muitas vezes irreparáveis aos “cancelados”.

Cafferty

Foi exatamente isso o que aconteceu com o americano Emmanuel Cafferty, de 47 anos, no último dia 3 de junho, quando voltava para casa depois de mais um dia de trabalho. Sua rotina era passar entre 8 e 12 horas diárias em inspeções na rede subterrânea de gás e eletricidade da cidade de San Diego, na Califórnia. Era fim de tarde e fazia calor. No volante da caminhonete da empresa, ele mantinha a janela aberta, o braço esquerdo pendendo sobre a porta do veículo.

Em entrevista à rede BBC News Brasil, ele contou que estalava as juntas dos dedos da mão esquerda com displicência, o polegar alongado, os demais dedos em direção à palma da mão, um tique que repetiu algumas vezes e foi justamente esse ato de estalar de dedos de Cafferty que levou um motorista de outro veículo a interpretar como um gesto específico, um símbolo usado por movimentos supremacistas brancos.

“Foi nesse momento que um homem desconhecido com um celular e uma conta de Twitter virou minha vida de cabeça pra baixo”. Duas horas após o incidente, seu supervisor telefonou para dizer que ele havia sido denunciado como racista nas redes sociais e estava sendo suspenso do trabalho, sem vencimentos. Uma hora mais tarde, seus colegas chegaram à sua casa para levar a caminhonete e o computador da empresa. Cinco dias depois, ele estava demitido.

Consequências implacáveis

A cultura do cancelamento é um ataque à reputação que ameaça o emprego e os meios de subsistência atuais e futuros do cancelado. Extremamente frequente nos Estados Unidos, sem distinção entre famosos ou anônimos, no Brasil se tornou mais comum entre as celebridades. O exemplo recente com perdas financeiras e danos morais foi o da blogueira e influencer digital Gabriela Pugliesi. Depois de postar imagens de uma festa que deu em sua casa, em abril, em meio a uma quarentena por conta da epidemia de coronavírus, uma multidão online passou a cobrar as marcas que a patrocinavam para que rescindissem os contratos de publicidade. Apesar do pedido público de desculpas, Pugliesi foi criticada por famosos, perdeu seguidores e pelo menos cinco contratos, totalizando um prejuízo que teria superado os R$ 2 milhões.

Regras de comportamento

Entre os empresários do ramo artístico a questão do cancelamento não é mais se vai acontecer ou não, mas quando vai acontecer? E por esse motivo já se fala em regras de comportamento para as redes sociais. Assim como o mercado corporativo já vem disseminando as boas práticas de comunicação, entre empresários e perfis de empresas nas redes sociais, aquela máxima continua valendo: “Eu sei o que você fez no Verão passado” – no caso da internet e na era Google, não só nesse “Verão”, mas em muitos verões passados. A internet não esquece e ainda deixa marcas.  E por mais que pessoas e/ou empresas contratem gestores de crise para recuperar os prejuízos, os impactos de alguma forma ficam eternizados. A internet deixa marcas, sejam financeiras ou morais, que podem comprometer a reputação para sempre.

Injustiça na busca por Justiça

Os cancelados terão sua identidade de alguma forma comprometida para sempre por terem cometido um erro grave, ou às vezes, não tão grave assim. O alcance da cultura do cancelamento tem levantado questionamentos sobre a possibilidade de que injustiças sejam cometidas justamente na busca por Justiça.

Seja como for, estamos vivendo uma era onde a internet tem mudado a forma de reconhecimento público. As pessoas, marcas e empresas precisam, de fato, entender que diversos comportamentos, hábitos e piadas não são mais tolerados pela sociedade e que a redes ganharam um papel fundamental na disseminação desses ideais sociais.

As plataformas digitais deram maior alcance e visibilidade às mensagens transmitidas fora dos meios tradicionais de comunicação, ampliando a liberdade de expressão e manifestação de opinião, mas ao mesmo tempo potencializaram também essa comunicação, que se for mal planejada ou executada, o estrago e a recuperação serão maiores também. Então vale a reflexão sobre a importância de se estabelecer regras de condutas ao se manifestar publicamente nas redes para que não hajam culpados antes de serem julgados.